Fantasia brasilis. o que nos impede? - Remo "Shido Vicious"

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Fantasia brasilis. o que nos impede? - Remo "Shido Vicious"

Mensagem por Leishmaniose em Dom Jul 05, 2015 9:51 pm

Olá,

Este é um texto muito interessante do Remo "Shido Vicious", uma pessoa conhecida por suas discussões e contribuições na saudosa Lista de Discussão Área RPG e no site RPGista, sobre a discussão em relação ao uso da temática tupiniquim na elaboração de um material fantástico. O texto saiu no fanzine Mamute 1, mas ele ficou tão bom que eu digitei na íntegra (e sendo algo do Remo, se tu ver algum erro de português ou de digitação, foi meu, quase certeza) e estava mostrando a alguns amigos quando se tocava no tema sobre fantasia brasileira. Como acredito que é um texto relevante pra uma discussão que ainda está a passos lentos aqui no Brasil, o posto aqui.

Bonanças.

Atenciosamente,
Leishmaniose
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Fantasia brasilis – o que nos impede?
Por Remo “Shido Vicious”.
 
Qual seu sabor favorito de fantasia? Talvez algo tolkeniano, com sua base em mitologia nórdica, germânica – gigantes em cordilheiras gélidas, dragões obcecados por tesouros, elfos feéricos em comunhão com a natureza. Juntemos à fórmula uma Europa de aparência medieval, seus castelos e cavaleiros. Sedutor e estimulante, não? E que tal fantasia de temática brasileira, com criaturas como o Saci, a Iara e a Cuca? Somemos a isso a exuberância amazônica e nossos povos indígenas. Arrisco: esta última possibilidade não despertou seu interesse. Já se perguntou o porquê desta diferença de tratamento? Por que, se ambos os casos tratam de mitologias e elementos culturais igualmente válidos, consumimos um com tanta avidez enquanto sequer concedemos ao outro mais que uma rápida olhadela, seguida de inevitável descarte? Por que raios Thor nos parece tão maneiro, mas Tupã, tão uó?
 
“É o exotismo!”, me diz alguém e prossegue – “o atrativo da fantasia é ser transportado para mundos diferentes, desvencilhar-se, por algum tempo, da realidade banal e deixar a mente vagar por terras distantes”, e por aí vai. Logo, uma cultura estrangeira seria, por esta lógica, mais exótica. Outra pergunta, então – você está tentando me convencer ou se convencer disso? Sejamos francos – atualmente, nada de exótico restou na fantasia europeizada. Todos os títulos de RPG que você consome abordam os elementos do gênero; é um clichê tão onipresente que vemos elfos e anões até mesmo em um cenário de fantasia, produzido no Brasil, cuja ambientação replica a Grécia antiga! Isto sem falar na literatura e no cinema, setor em que o gênero sofreu uma explosão nos últimos anos, graças aos avanços no campo da computação gráfica. Há muito já se esvaíram a novidade e o exotismo, e eles deram lugar para a reciclagem do reciclado.
 
Por que o hemisfério norte consome fantasia baseada em sua própria mitologia? “Casa de ferreiro, espeto de pau” – isto não se parece aplicar a eles. Outro chavão – “a grama do vizinho sempre é mais verde”: este se aplica a nós. As vértebras coccígeas que não nos deixam esquecer de nossa anterior cauda colonizada. Mas será esse o único motivo?
 
De um princípio tão simples, nos ensina Darwin, evoluiu a vida que hoje se apresenta em formas tão variadas e complexas. Quando pensamos em fantasia, costumamos ser remetidos ou ao Senhor dos Anéis de Tolkien ou ao pastiche mitológico de Gary Gygax que se hipertrofiou no Dungeons & Dragons. Ambos são história recente, seus elementos já nos chegam transformados, relidos, atualizados. Se retrocedermos no tempo, nos deparamos com o princípio simples, mais humilde e menos impressionante. Os dragões que hoje adornam nossos bestiários RPGísticos, majestosos e imponentes, nem sempre foram assim. Excetuando o eventual filtro de nostalgia que por ventura nos pode distorcer a visão, os dragões do passado neolítico de Dungeons & Dragons parecem, para o olhar atual, toscos e desengonçados. Que dizer, então, dos dragões de gravuras e iluminuras medievais? Mesmo o Renascimento ou o século XIX não nos brindaram com representações tão evocativas quanto uma ilustração do Sam Wood ou um acrílico de Wayne Reynolds.
 
Mesmo que ignorássemos a arte, as transformações por que passaram os elementos míticos que hoje figuram em nossos cenários de RPG são imensas. O elfo da mitologia nórdico-germânica não é igual ao de Tolkien, e este, por sua vez, sofre adicional modificação até se tornar o elfo D&Dêico que hoje conhecemos. Vale notar: elfos só passaram a ter orelhas pontiagudas por causa de Tolkien, que descreveu os seus como possuindo “orelhas em forma de folha”. E o que dizer, então, dos elfos no folclore inglês, seres feéricos e diminutos? (Pense nos elfos domésticos da série Harry Potter) Estes, aliás, são muito parecidos com kobolds mitológicos, que nada têm a ver com sauróides ou humanóides com cabeça canina.
 
No fim das contas, não são os mitos europeus em si que tanto nos fascinam como elementos de RPG, mas o resultado da sequência de derivações que eles sofreram. Comparar este produto final com nossos mitos brasileiros in natura é tão incongruentes quanto comparar um diamante lapidado com um bruto.
 
E se não for diamante? Por pior que seja em seu estado bruto, um dragão ainda é, bem, um dragão – um monstro temível. Como compará-lo ao Saci Pererê – um moleque travesso cuja maior transgressão, parece, é ser tabagista –, ou à Cuca – uma bruxa-jacaré com uma peruca loira que nem a mais amadora das drag queens seria pega usando? Aqui entramos novamente no campo da derivação. Proponho um exercício de pensamento: suponha que você não conheça dragões. Você não sabe nada sobre eles – nunca ouviu falar, e sequer imagina como um se parece. Nesta situação assista à animação Como treinar o seu dragão. Você seria realmente capaz de levar a sério os escamosos? Provavelmente não. Mas, ainda assim, é exatamente isto que você exige do Saci e da Cuca.
 
A maioria de nós conhece tais personagens míticas através das estórias de Monteiro Lobato, ou outras de direcionamento semelhantemente infanto-juvenil. Assim sendo, é claro que qualquer carga mais pesada será diluída até o ponto da inexistência. Se quisermos conhecer o potencial de nossos mitos tupiniquins, devemos colher nossas amostras na fonte. Neste aspecto, o livro Geografia dos Mitos Brasileiros, de Luís da Câmara Cascudo, se mostra um ótimo recurso. Nele estão contidas descrições detalhadas de nossas criaturas folclóricas, a forma como divergem de acordo com a região do país, sua genenalogia e relação com mitos estrangeiros.
 
De acordo com o mito amazônico, o Saci não é um humanoide, mas, sim, uma ave: “Um tuixaua tinha dois filhos e vivia feliz com eles. O tio odiava os sobrinhos e convidou-os para ajudá-lo numa derrubada de árvores para fazer um plantio. Os dois sobrinhos aceitaram. Chegados na floresta, o tio embriagou os dois rapazes e matou-os. (...) Ficaram, desde então, mudados em dois pássaros de agouro, de mistério e de morte. (...) Ambos, nascidos numa tragédia, espalham desgraças e semeiam pavores.”
 
Há também relatos que o retratam como antropomórfico – “Saci perereg (Çaa Cy – olho mau; pérérég – saltitante). Preto. (...), uma perna, rastro de criança, espora de galo velho que dá para empoleirar dois pintos. (...) tem três dedos. Mão furada, orelha de morcego, carapuça vermelha (...) Deita fumaça pelos olhos.” Noutros relatos, é descrito como sendo bastante cruel: “é costume do Saci matar os que o ofendem, a cócegas ou a pancada,” e também “Em outras eras, tinha como teatro de suas maldades e judiações as senzalas e fazendas de muita escravatura. (...) enchia de cinzas os olhos dos criolinhos; atirava brasas no seio das negras; arrastava as criolas para o fundo das brenhas, dava sumiço em crianças.”
 
Já a Cuca é descrita por Lobato, em 1921, como sendo uma bruxa velha, de rosto de jacaré e garras compridas. A imagem (difícil de levar a sério) que dela temos hoje pode ser atribuída às adaptações televisivas do Sítio do Pica-Pau Amarelo”, em que é uma jacaré humanoide com uma peruca amarela barata. A Cuca de Lobato pode ser dita como uma mescla de dois mitos relacionados. De um lado, a Cuca, “ente velho, muito feio”, que “amedronta pela deformidade”, visto como “uma velha, bem velha, enrugada, de cabelos brancos, magríssima, corcunda e sempre ávida pelas crianças que não querem dormir cedo e fazem barulho.” Do outro a Coca espanhola, “um dragão, corpo paquidérmico, patas de grilo, cauda serpentiforme, e um grande par de asas,” e também a portuguesa, também um dragão , que enfrenta São Jorge nas comemorações de Corpus Christi. É possível que Monteiro Lobato tenha combinado a Coca e a Cuca para compor a sua, de certo para ressaltar a monstruosidade da personagem através da aparência inumana, e optou pela cabeça de jacaré porque, para a grande maioria das pessoas, é mais fácil imaginar um jacaré do que um dragão (que, por ser inexistente, não há consenso quanto à sua aparência exata).
 
Superada a infantilização e resgatadas as origens, temos mitos carregados de enorme potencial. O que previne, então, uma fantasia de temática brasileira de ver a luz do dia?
 
“Mas já tentamos: e falhou,” alguém pode argumentar. Há alguns títulos de RPG de temática brasileira de que a maioria pode se lembrar com facilidade – O Desafio dos Bandeirantes, da década de 90, alguns suplementos para Mini-GURPS, e o Hi-Brazil, da Editora Daemon. Os títulos GURPS (como Quilombo dos Palmares e Entradas e Bandeiras) são históricos, não fantasia. Já o Desafio dos Bandeirantes, por sua antiguidade, é hoje apenas uma curiosidade entre jogadores igualmente antigos. Foi amparado, aparentemente, por boa pesquisa, mas talvez a abordagem D&Dêica tenha ficado um pouco estranha – seja como for, não emplacou. Ainda assim, é muito melhor que o Hi-Brasil. Não há demérito em ser satírico, mas o desenvolvimento parece pobre – passa a impressão de não ter havido qualquer pesquisa, é nossa história meramente recontada através de clichês de fantasia, colorida por parcialidade política. Engraçadinho, raso.
 
Por vezes, a fantasia europeizada possui uma base de um livro só – O Senhor dos Anéis. Mas, neste caso, os que usam esta única referência estão com sorte: Tolkien, para compor sua obra, empreendeu um levantamento sério e minucioso acerca dos mitos e culturas que lhes serviram de base. Podemos tirar daí a lição de que...
 
Pesquisa é fundamental. Não que se deva tornar-se especialista no assunto ou sobre ele escrever teses – mas é no mínimo de bom tom saber do que se está falando. Ademais, é uma excelente forma de fugir dos clichês. A temática brasilis parece ser abordada com arsenal insuficiente, versões ou superficiais ou ufanistas do assunto que costumamos aprender no Ensino Médio. Perdem-se detalhes e particularidades que tornariam o material derivado deveras interessante, o que me parece imperdoável, visto que o acesso a tais fontes de referência é relativamente fácil.
 
Tal conhecimento ainda traz um bônus: a possibilidade de fugir da já cansada abordagem de Brasil colonial, Bandeirantes e afins. Por que raios sempre Brasil colônia? Havia vida no país antes disso: por que não explorar este tema, talvez até arriscar uma abordagem especulativa, “como teria o Brasil progredido sem a colonização,” ou “e se os índios se houvessem unido e repelido os colonizadores” (assumindo, claro, que resistissem aos hábitos dos portugueses e a sedução da vida em suas cidades, que os indígenas muito apreciavam).
 
Há uma versão pocket da L&PM, bem acessível de relatos de Hans Staden, Duas viagens ao Brasil. Nele, vislumbramos as aventuras do gringo em uma terra exótica, com direito a descrições detalhadas de paisagens, eventos e costumes. Uma das partes, Breve relato verídico sobre os modos e costumes dos Tupinambás, é um excelente material de referência. As gravuras deste livro não são lá a coisa mais fidedigna do mundo, contudo. Não tem problema – as aquarelas de Jean Baptiste Debret nos fornecem um registro visual deslumbrante, recheado de elementos visuais com os quais você pode compor uma estética realmente interessante para sua fantasia brasilis. Idem para os registros visuais de Adrien Taunay e outros da mesma época.
 
Sobre os indígenas, ainda, é interessante repelir a ideia romântica do “bom selvagem”. Não pense neles como os Nav’i do Avatar de James Cameron, em forçosa harmonia new age com a natureza. De acordo com O Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, de Leandro Narloch: “Antes de os portugueses chegarem, os índios já haviam extinguido muitas espécies e feito um belo estrago nas florestas brasileiras. Se não acabaram com ela completamente, é porque eram poucos para uma floresta tão grande.” É natural do humano – exaurir os recursos à sua volta, a voracidade variando com a tecnologia disponível para tal.
 
Usar o agregador “índio”, como se todos fossem uma coisa só, é artificial e enganador -  a realidade é uma de grupos distintos, de idiomas e costumes próprios. (Seria o mesmo que pôr franceses, ingleses e italianos num mesmo “saco de gatos”, “europeus”, ignorando suas particularidades.) E não pense que todos se davam bem: “Dando e recebendo presentes, os índios acreditavam selar acordos de paz e apoio [com os portugueses] quando houvesse alguma guerra. E o que sabiam fazer muito bem era se meter em guerras. (...) os índios da família linguística tupi-guarani, originários da Amazônia, se expandiram lentamente pelo Brasil. Depois de um crescimento populacional na floresta amazônica, alguma adversidade ambiental (...) os empurrou para o Sul. (...) Por volta da virada do primeiro milênio, enquanto as legiões romanas avançavam pelas planícies da Gália, os tupi-guaranis conquistavam territórios ao sul da Amazônia, exterminando ou expulsando inimigos. Índios caingangues, cariris, caiapós e outros da família linguística já tiveram que abandonar o litoral e migrar para planaltos acima da serra do Mar.” Nossos nativos tinham problemas. E problemas geram aventura.
 
Resistamos também a incluir um cocar e um arco e flecha e deixar por isso mesmo. De acordo com Flügel (A Psicologia das Roupas), os trajes surgiram não por proteção ao frio, mas por ornamentação. E são enfeites com propósito – valorizam elementos sensuais, indicam posição, servem como troféus que aludem à bravura de caçador, ornamentos grotescos que causam terror ao adversário... Entre os povos ameríndios, me informa o camarada Rafael Barbi, tais elementos se vestem de uma significância adicional. Em sua cosmologia, é muito presente a ideia de transformação – mulheres que viram onça ou Saci-ave que vimos anteriormente, por exemplo – e o ornamento corporal entra para reforçar tal ideia. Quando um homem, no mito, se transforma em uma onça, usa uma parte desta (uma presa ou pele) para fazê-lo – tal transmutação se apropria de um pedaço de outro ser (podemos traçar certa relação com o conceito de troféu, de Flügel), mas há riscos em fazê-lo, visto a transformação poder ser irreversível (o perigo de ficar “trancado” na forma do outro).
 
A releitura pop é o próximo passo. Você já tem bem pesquisado os mitos e culturas brutas, e, como fez Tolkien com a argila da mitologia nórdica, cabe moldá-los. Não simplesmente reproduzir, mas tornar os elementos temáticos e imagéticos e reorganizá-los. Reimagine-os sob uma estética mais atual, teça relações inusitadas entre eles, opere torções que revelem o conceito sob uma luz totalmente inesperada. Assim como o Dungeons & Dragons é um pastiche de mesclas quase filistêicas, conduza suas transformações sem medo – os elementos pesquisados são uma base sobre a qual se pode construir, e não uma camisa de força. Quem sabe seu Saci ainda seja um negrinho de uma perna só, mas possui orelhas de morcego, a perna que lhe falta pode ser uma massa atrofiada de dedos malformados de unhas enormes, retorcidas: o gorro vermelho, a que se atribui seus poderes mágicos, pode ser um simbionte com os dentes cravados fundo na cabeça do “hospedeiro”. A bruxa Cuca devora crianças, absorvendo o tempo de vida a que “teriam direito” caso não houvessem sido mortas, de maneira a manter uma instável imortalidade – oferendas poderiam manter a aldeia a salvo de sua predação? Inimigos temíveis ou aliados de valor inestimável, animais inteligentes podem ser pajés que assumiram a forma bestial e foram incapazes de reverter o processo. As aldeias indígenas são pontos de luz em meio à vastidão da selva bravia e inexplorada – que coisas mágicas, maravilhosas e pavorosas na mata fechada espreitam?
 
E se, no fim das contas, nenhuma destas possibilidades lhe despertou o interesse, e prefere continuar exclusivamente com a fantasia europeizada, tudo bem. Mas que a rejeição se dê por razões conscientes, e não por ignorância.
 
 
Artigo publicado originalmente no fanzine Mamute, nº 1.

Remo é o equivalente masculino de “megera”, se é que tal coisa existe. Gosta de sistemas indies e narrativos, cenários obcecados por verissemelhança, bandas de visual kei (kotekate, nada de oshare ou eroguro), fantasia new weird, ficção científica e ciências e artes em geral. É estudante de Design de Moda na Universidade Estadual de Londrina e fervoroso devoto da santíssima trindade: Estética, Rock’n’Roll e Bom Café.

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"Se o Destino for mesmo um Moinho...
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"Se não posso proteger apenas estendendo a minha mão, desejo uma espada...
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