A Mística Gótica - Andrew Cemark, John Mangrum, Andrew Wyatt

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A Mística Gótica - Andrew Cemark, John Mangrum, Andrew Wyatt

Mensagem por Leishmaniose em Dom Jul 05, 2015 10:19 pm

Olá,

Este é um dos textos presentes no Ravelonft: Cenário de Campanha, livro que adapta ao cenário de Ravenloft para a terceira edição do D&D, que nos Estados Unidos saiu pela Sword & Sorcery e aqui no Brasil teve sua publicação pela Devir. É um texto bastante interessante e dá uma pincelada sobre a mística do horror que teve suas origens no final do século XVIII, popularizou-se no século XIX, e aqui e ali ressurge, trazendo à tona temas contemporâneos, mas com uma roupagem mais sobrenatural - Penny Dreadful que o diga. Wink

Bonanças.

Atenciosamente,
Leishmaniose
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A Mística Gótica

Pode-se dizer que o romance gótico é um conto policial primitivo, no qual Deus ou o Destino são os detetives.
E. F. Bleiler, editor, Three Gothic Novels

Imagine um cenário situado em uma era antiga, muito similar a uma versão extremamente romântica da nossa própria era medieval. Um mundo que ainda se apega a crenças e supertições antigas. Um pequeno e corajoso grupo de rapazes e garotas explora uma ruína antiga, tentando desvendar uma teia sinistra de mistérios, trancada dentro de um labirinto de passagens secretas. Nesses corredores sombrios, nossos heróis enfrentam diversas ameaças sobrenaturais — mas nenhuma é tão terrível quanto o poderoso e corrupto mestre da fortaleza, que permanece no centro das ruínas e dos mistérios.

Essas imagens, familiares para quaisquer exploradores de masmorras dos jogos modernos de RPG, surgiram nos meios literários com o nascimento do gênero gótico no final do século XVIII. O pai deste gênero foi Horace Walpole, um autor diletante encantado pela sua visão romântica da Idade Média. Seu romance O Castelo de Otranto criou a base temática que todos os romances góticos antigos iriam seguir.

Contos Góticos Antigos

Os romances góticos antigos eram contos de mistério, romance e horror psicológico. Embora geralmente se situassem em tempos remotos, seus autores estavam mais preocupados em estabelecer uma atmosfera de decadência e deterioração do que alcançar qualquer senso de exatidão histórica. No coração dessas fábulas antigas, permanecem os vastos castelos góticos em ruínas que batizaram o gênero. Essas cidadelas ancestrais eram mais do que simples cenários. Sua lenta transformação em ruínas pitorescas refletia a decadência espiritual de seus mestres, suas passagens secretas revelavam mistérios ancestrais e os espectros que perambulavam por seus corredores ocultavam pecados antigos, nunca vingados ou esquecidos.

O senhor do castelo — e vilão do conto — era um assassino e usurpador que havia sacrificado inconscientemente toda a sua esperança e felicidade numa perseguição faustiana interminável por conhecimento, poder ou prazer. O protagonista, insignificante em comparação ao seu algoz, geralmente assumia o papel de uma garota encantadora e inocente em perigo nas mãos do vilão, ou de um bravo rapaz injustiçado ao ter seus direitos de nascença roubados.

Os contos góticos estão repletos de uma atmosfera de pavor sobrenatural. Maldições ancestrais e fantasmas perturbados manipulavam os acontecimentos e arruinavam a sanidade dos personagens. Deformidades incomuns, como cicatrizes, marcas de nascença estranhas ou corcundas, transformavam homens em monstros, aparentemente punindo-os pelos crimes de seus pais. Os contos góticos evocavam horrores sutis, derivados de presságios, não da carnificina — a consciência de que o pôr-do-sol iminente libertará um vampiro de sua cripta, e não os detalhes mórbidos da fúria de um lobisomem. Na verdade, o sobrenatural era apresentado de maneira tão sutil nos romances góticos antigos que muitas vezes só era explicado completamente depois que o mistério central da trama já estava
resolvido. Na claridade do dia, os fantasmas se tornavam meros truques de luz e as criaturas misteriosas revelavam-se apenas como ermitões enlouquecidos.

Mas não se pode negar a existência da presença sobrenatural nessas obras. Nos bastidores, as forças divinas do Bem e do Mal duelavam para determinar o fim da trama. A maioria desses contos góticos aderia fielmente a um mesmo roteiro: o vilão tirano cometera um crime terrível e escapara da justiça, mas sua existência fora corrompida e assombrada por seus pecados. Os jovens e inocentes protagonistas chegavam aos domínios do vilão. Este, enfurecido com a pureza dos heróis ou temendo que eles descobrissem sua culpa, começava a perseguir os jovens inocentes. Conforme o conto se desdobrava, os caprichos do destino e intrusos espectrais revelavam os crimes do vilão e as injustiças cometidas contra os heróis. Eram os próprios erros do vilão e as forças divinas da justiça — muito mais do que os infelizes protagonistas — que conduziam o vilão à sua ruína. No final, todos os crimes eram vingados, o mal devorava a si mesmo e o amor verdadeiro emergia vitorioso.

A Tradição Gótica Atual

O gênero gótico desenvolveu-se no começo do século XIX. Novas gerações de autores quebraram a rígida fórmula do gótico antigo, acrescentando camadas às bases de Otranto. Os infelizes protagonistas dos contos antigos foram deixados de lado, servindo apenas como meras testemunhas da ruína do vilão. O gênero gótico pertencia aos vilões: anti-heróis sofisticados que eram ao mesmo tempo repugnantes e carismáticos, detentores de um potencial surpreendente, mas desperdiçado em meio a terríveis falhas mortais. Entre esses vilões góticos está Victor Frankenstein, que foi condenado por suas ambições divinas, e o califa Vathek, que perseguiu sua ganância por poder através de um inferno árabe.

As maldiçoe nebulosas e as assombrações dos contos antigos agora eram muito reais. Os novos autores góticos reinterpretavam as lendas ancestrais para inventar novos arquétipos de horror. Mary Shelley criou o golem de carne, dando vida aos perigos e responsabilidades da paternidade. John Polidori se inspirou em seu companheiro, o famoso poeta Lorde Byron, para criar o primeiro vampiro aristocrata e carismático do mundo.

Os fantasmas e carniçais da tradição gótica eram, acima de qualquer coisa, doppelgangers alegóricos: reflexões sobre o mal humano. Quando Frankenstein rejeitou seu monstro, afastou as terríveis conseqüências das suas ações profanas. Essas mesmas ações iriam retornar para assombrá-lo na forma de sua miserável criação.

O Restabelecimento Vitoriano

Conforme o século XIX se desenrolava, as tradições góticas foram distorcidas além de suas raízes. Quando o gênero começou a declinar, Edgar Allan Poe adicionou contos de demência e obsessão e em Os Assassinatos da Rua Morgue transportou o senso gótico de pavor antinatural para sua nova criação: o “detetive erudito”.

Mais uma vez, o gênero gótico “retornava à vida” no final do século. Os novos autores aplicaram os temores sociais de seu tempo aos estilos mais antigos. Os campos férteis da evolução e da psicologia ameaçavam provar que o homem era apenas uma besta oculta sob o fino véu da civilização. Desses medos, derivados de paixões reprimidas e tradições, surgiram Dorian Gray, que escondia um retrato de sua verdadeira depravação; Dr. Moreau, que tentou transformar os homens em animais e a si mesmo em deus; e Dr. Jekyll, cuja luta contra sua selvageria oculta formaria as bases do lobisomem gótico.

À medida que o século XIX abria espaço para o século XX, um aspecto da antiga tradição gótica começava inesperadamente a voltar à tona: o herói. Os protagonistas de Drácula, de Bram Stoker, perseguiram seu adversário imortal através de toda a Europa para acabar com seu reinado maligno. Os detetives eruditos saíram de cena para dar lugar aos “detetives ocultistas”, como o General Spielsdorf de Le Fanu, Van Helsing de Stoker, John Silence de Blackwood e Carnacki de Hodgson. Esses personagens não estudavam as ciências ocultas para conseguir o poder, mas para combater o mal — esses virtuosos estudiosos deixavam seus correspondentes faustianos em regiões ainda mais profundas da escuridão.

Com seus contos sobre o caçador de bruxas puritano Solomon Kane, Robert E. Howard chegou a levar os estilos góticos para mundos de pura aventura fantástica, os mesmos gêneros de espada e magia que um dia originariam os RPG de fantasia.

Ida e Volta do Cemitério

Com o surgimento do século XX, o gênero de horror continuou existindo. A tradição gótica deu lugar a contos estranhos de autores como H. P. Lovecraft, que mantinha uma aura gótica de decadência ao mesmo tempo em que criava entidades estranhas e terríveis, refletindo uma sociedade humilhada pelas descobertas científicas e a falta de humanidade durante a Primeira Grande Guerra. Vampiros, fantasmas e lobisomens logo foram descartados como clichês gastos.

Mas eles sempre retornam. Algumas décadas se passaram e a tradição gótica voltou com força total ao mundo, como o Sr. Hyde reprimido há muito tempo. A cada surgimento do gênero gótico, os novos escritores distorciam os antigos arquétipos, aplicando sobre eles as inquietações de suas épocas. Cada era possui uma doença que poderia estar oculta nas botas de um vampiro; cada geração assistiu aos contos de Frankenstein e Moreau se aproximarem um pouco mais da realidade.

O gênero gótico se recusa a repousar silenciosamente em sua tumba. Seus horrores — vampiros, maníacos, fantasmas — continuam a ressoar dentro de nós, porque somos esses horrores.

Fonte: CEMARK, Andrew; MANGRUM, John; WYATT, Andrew. Ravelonft: Cenário de Campanha. São Paulo: Devir, 2003.

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