Estação das Brumas

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Estação das Brumas

Mensagem por Leishuck Norris em Sab Jul 18, 2015 3:53 pm

Estação das Brumas

"Os olhos humanos (ao contrário, digamos, dos olhos de um gato ou de um polvo) são feitos para ver apenas uma versão da realidade de cada vez. Fat Charlie via uma coisa com seus olhos, outra coisa com sua mente e, no espaço entre as duas coisas, a loucura o aguardava. Sentia o pânico começando a apoderar-se dele, então aspirou o ar profundamente e prendeu a respiração enquanto seu coração batia fortemente contra as costelas. Forçou-se a acreditar em seus olhos, e não em sua mente."
(Neil Gaiman)


Em meio ao silêncio que Hyrah tentava manter em seu espírito, a Floresta preparou-se para entoar a sua sinfonia, como se compusesse um réquiem para os minutos finais da vida de alguém... Um relâmpago ecoou pelos céus da mata, iluminando a tudo, e com um trovão tão estrondoso que foi capaz de fazer tremer toda a floresta, esfacelando o silêncio de sua alma em pequenos cacos, como um toque de trombeta que anuncia o abrir dos portões do inferno.

O céu desabou em uma intensa tempestade sobre a garota, com gotas grossas que chegavam a machucar ao atingir sua pele. Ao virar-se pra procurar o lado por onde viera, a borda da floresta e sua saída, só viu mata fechada, com árvores de troncos grossos e altos arbustos espinhentos entre elas, como se estivesse no centro da Floresta. Os arbustos espinhentos e ervas daninhas cobriam todo o chão e as árvores erguiam-se aos céus, retorcidas e encurvadas sobre a garota como um predador prestes a saltar sobre sua presa. Não havia trilhas e as gotas atravessavam as copas das árvores como pequenos granizos. Uma tempestade gélida e forte que já tornava o chão do local lamacento e escorregadio, enquanto filetes de névoa deslizavam como serpentes traiçoeiras acima do lamaçal.

Outro relâmpago cruzou o ar, enquanto ela sentia a temperatura caindo tanto que ela podia ver sua respiração vaporizando-se em contato com o ar frio. O tremor na pele não demorou a surgir, enquanto algo surgia no seu campo de visão, vagando entre os espaços escuros dos troncos, como duas fagulhas azuis brilhando na escuridão... Focando melhor a visão, a garota percebeu faíscas menores e uma leve luminosidade que revelava uma criatura feita de puras brumas, como um Elemental. A garota prendeu a respiração, enquanto sussurrava para si mesma o nome daquele tipo de criatura.

Na mão direita da criatura, ou o que devia ser sua mão direita, Hyrah percebeu que faíscas começavam a se concentrar formando pequenos raios, como nas nuvens antes de um relâmpago ser lançado em direção à terra... E as fagulhas azuis que serviam de olhos fitavam fixamente a garota, com bastante crueldade e satisfação, pois a criatura encontrara aquela que a alimentaria por meses...


O enevoado e ferino labirinto que cerca o Makai encerra muitos mistérios para os Darkstalkers. Certos aspectos do Senkaimon são bem conhecidos, mas até mesmo aqueles que os utilizam com regularidade não compreendem necessariamente “como” essas coisas funcionam, e quase ninguém sabe dizer ao certo “por que”.

Aqueles que se lembram de ter sido raptados pelos Kamis quase sempre recordam de ter sido arrastado dolorosamente por névoas cortantes em sua jornada ao domínio de seu pretenso Daimyo. Por mais claro que o caminho pareça ser, ninguém entra no Makai intacto – com exceção dos Kamis. Os que se lembram de seu retorno recordam de uma despedida igualmente dolorosa, como se a névoa relutasse em liberá-los sem antes cobrar o devido pedágio. Por causa disso, uma das únicas certezas que se tem é que o Senkaimon serve de fronteira entre o Nigenkai, o mundos dos humanos, e o Makai, o mundo dos kamis. A maioria dos outros aspectos são mutáveis, como convém a um lugar cuja única razão de existir parece ser obstruir e confundir.

O Senkaimon é capaz de tomar qualquer forma com facilidade. Em alguns lugares ele é descrito como cercas vivas vitorianas de desenho imaculado, em outros como brejos terrivelmente fedorentos que marcam (ou escondem) os rastros dos que ali passam com trechos traiçoeiros de água suja. Mas a forma mais conhecida é a de uma floresta primitiva e densa, onde os arbustos se prendem às roupas e à pele daqueles que as atravessam, e a mata fechada nubla sua visibilidade – o tipo de floresta pode variar de floresta temperada à selvas intransponíveis, geralmente refletindo a flora do Nigenkai para que pessoas desavisadas só percebam a diferença quando for tarde demais.

Entretanto, mais assustador que as inúmeras formas de flora e fauna no interior do Senkaimon, talvez seja sua capacidade de se transformar rapidamente. Em um piscar de olhos o Senkaimon pode se alterar completamente, mudando trilhas e até mesmo toda a flora, de forma sutil e discreta ao ponto de apenas um observador muito atento perceber as mudanças. O Senkaimon tem um efeito psíquico, afetando diretamente a mente e dando a impressão que a paisagem que acabou de mudar sempre esteve ali. Não importa se uma nogueira acabou de surgir no lugar de um carvalho, após você piscar os olhos, em sua mente é como se ela sempre estivesse estado ali.

Por fim, o Senkaimon possui um elemento psicoativo que o faz mudar de acordo com a pessoa que se encontra nele. Com tentáculos invisíveis, ele adentra pelo labirinto da mente vasculhando os recantos mais sombrios e profundos da pessoa e se adapta lentamente como resposta, criando armadilhas que a aprisione para sempre ali, afogada em belezas e horrores que habitam o seu inconsciente enquanto sua alma e sua lucidez degeneram em total entrega ao Senkaimon. Embora sutil, esse efeito pode ser notado mais comumente nos locais aos quais as pessoas são levadas quando se perdem sozinhas no Senkaimon e, de certa forma, nas alterações que o ambiente sofre quando um youkai muito poderoso entra na fronteira dos mundos.

Em volta daqueles que têm um Hanchuu elevado, o Senkaimon se altera em resposta à natureza deles. Vento frio e flocos de neve podem surgir quando há um youkai de aspecto invernal no local, assim como ele pode tornar-se um lugar mais escuro e sombrio quando um youkai de aspecto trevoso o atravessa. É como se o local detectasse de maneira imanente aquele poder e em resposta alterasse pra refletir fisicamente elementos dos espíritos youkais mais fortes – de certa forma, deixando-o mais à vontade e diminuindo seu desconforto e desejo de sair dali o mais rápido possível.

Entretanto, alguns aspectos ainda são válidos, apesar da mutabilidade da paisagem. Trilhas e estradas atravessam o Senkaimon, algumas levam somente a outros pontos de entrada e saída para o Nigenkai, e outras – em geral as mais nítidas – se aprofundam na paisagem do Makai. O instinto humano muitas vezes dita que a estrada mais batida é a mais segura, mas no Makai essa frase raramente corresponde à verdade. As estradas mais nítidas no Makai costumam ser mantidas pela vontade e pela magia dos Kamis. Elas podem até propiciar uma travessa rápida, mas costumam levar para locais de onde os seres humanos nunca mais retornarão.

Entrada e Saída

É quase impossível aos seres humanos chegar ao Makai a partir do Nigenkai sem a intervenção do sobrenatural – seja direta, indireta ou incidentalmente. Os limites do Senkaimon não são somente físicos, mas também místicos. Apesar dele ser teoricamente acessível a partir de vários pontos do mundo, entrar nele a partir do Nigenkai nunca é uma certeza – conseguir uma saída então, menos ainda. Passagens abertas para o Senkaimon podem ficar dormentes, sem nunca se fechar de fato, e os seres humanos, recorrendo ao sobrenatural ou por puro azar, às vezes atravessam esses portais e entram no Senkaimon, provavelmente arrependendo-se depois. Voltar a sair não será muito difícil, desde que não tenham se afastado demais da passagem – e ela permita a saída. Contudo, depois do Nigenkai sumir de vista, as coisas tornam-se complicadas. O Senkaimon é praticamente ilimitado em sua vastidão labiríntica e, dentro de sua extensão desconcertante, existem incontáveis perigos, entre eles o de simplesmente ficar perdido para sempre.

Os Darkstalkers, porém, foram abençoados e amaldiçoados por sua associação com os Kamis. Isso propicia a eles um acesso muito mais confiável ao Senkaimon do que tinham quando eram humanos, ao mesmo tempo em que os torna muito mais interessante para os habitantes do Makai. Apesar dos youkais entrarem no Senkaimon com muito mais facilidade que os seres humanos, no enevoado entremundos eles se tornam um autêntico farol de Chi e sinalizam sua presença para as criaturas que preferem consumir a carne, a magia ou as emoções youkais.

Tegakari

Todas as entradas para o Makai são inerentemente sobrenaturais – algumas bem mais fortes que as outras. Certos locais chamados Tegakari encontram-se tão impregnados de poder que não servem somente de ponte entre o Senkaimon e o Makai, que fica além, como também gera a substância da magia youkai, o Chi. A essência Chi pode ser colhida por quem tiver a habilidade para tanto, e depois empregada para fortalecer o usuário ou alimentar seus poderes sobrenaturais. Alguns lugares místicos das lendas e mitos podem, na verdade, ser tegakaris de poder suficientemente elevado ao ponto de chamar a atenção até mesmo de seres humanos. Outros tegakaris, apesar de igualmente poderosos, continuam isolados, longe da atenção dos mortais, vigiados com todo o cuidado para que não sejam contaminados nem enfraquecidos, seja intencionalmente ou por acidente.

Os tagakaris, apesar de fornecerem um benefício essencial a quem é capaz de colher seu Chi, também são intrinsecamente perigosos. Os youkais não são as únicas criaturas que utilizam o Chi, e a possibilidade de um Kami ser atraído a um local desses é tão sério a ponto dos tegakaris se tornarem um risco para aqueles que preferem não chamar a atenção dos Kamis.

Yashiki

Da mesma maneira, a reputação dos Yashikis que se encontram espalhados por todo o Senkaimon é a de uma bênção ambígua. Esses vãos podem parecer qualquer coisa, desde pequenas tocas a clareiras vastas onde se erguem casas de campo elaboradas. Entretanto, como outros aspectos do Senkaimon, os Yashikis raramente são aquilo que parecem ser.

Os youkais costumam criar um desses vãos no Senkaimon, construindo-o da forma mais agradável aos seus gostos e usando-o como uma espécie de santuário cercado pelas proteções de antigos genmans de hospitalidade. Nesse lugar, mantido pela vontade do Youkai e por sejam quais forem os genmans que ele tiver imposto ao local, ele pode se isolar do Nigenkai e imergir no deslumbramento das possibilidades youkais em relativa segurança. Os mais empreendedores podem até mesmo cultivar coisas que só existem no Senkaimon: Mi Otoris, capazes de curar e oferecer outros benefícios; lacaios semirracionais para atender aos caprichos e necessidades do youkai; tesouros animados que a humanidade só conhece de lendas e mitos; entre outros.

Porém, apesar das vantagens óbvias, os Yashikis são lugares perigosos. O tempo passado no Senkaimon, principalmente em relativa segurança, pode se tornar viciante para o espírito youkai, e alguns se descobrem poucos dispostos a trocar suas moradias pela dura realidade do Nigenkai. Contudo, passar tempo demais no Senkaimon, assim como qualquer exposição prolongada à essência da magia do Makai, destrói a lucidez de um youkai e consome sua alma, deixando-o cada vez menos capaz de discernir o que é verdade e o que é ilusão – e menos ainda de se importar com isso.


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